Dra. Mariana Lage Mariana Lage Psicologia
← Voltar para o blog
Trauma · 7 min de leitura · Por Dra. Mariana Lage, CRP 01/8814

Viver em estado de alerta: o que a ansiedade tenta dizer

Dra. Mariana Lage
Dra. Mariana Lage
Psicóloga Clínica · CRP 01/8814 · Formação EMDR & Brainspotting
Pessoa contemplativa em uma janela ao entardecer — representação visual do estado de alerta
Quando o corpo aprende a baixar a guarda — em segurança, o alarme enfim silencia.
Em resumo

Você dorme, mas não descansa. Está em segurança, mas o corpo insiste em vigiar. Acorda cansada antes mesmo do dia começar — e, em muitos dias, só quer chegar em casa pra fechar a porta e silenciar o mundo por algumas horas. Se isso soa familiar, talvez o seu sistema nervoso ainda esteja respondendo a algo que já passou — e a ansiedade, longe de ser uma inimiga, pode ser um recado.

Este artigo é sobre esse recado. Não é um diagnóstico, nem um protocolo de autoajuda — é uma tentativa de traduzir, em palavras acessíveis, o que acontece dentro do corpo quando vivemos em alerta. Também compartilho como abordo esse tema na clínica, com pacientes que chegam se sentindo "quebrados" e descobrem, ao longo do processo, que estavam apenas adaptados a um perigo que não existe mais.

O que é, de fato, o estado de alerta

Diante de uma ameaça real — um carro freando bruscamente, alguém gritando, uma situação de perigo físico —, o cérebro faz exatamente o que deveria: ativa o sistema nervoso simpático para nos proteger. O coração acelera, a atenção se estreita, os músculos se preparam para lutar ou fugir. É um mecanismo antigo, anterior à linguagem, e está em todos os mamíferos. O problema não é esse mecanismo — é quando ele não desliga.

Esse mecanismo de defesa foi mapeado de forma brilhante por Stephen Porges, em sua Teoria Polivagal (2011). Porges descreve três estados do sistema nervoso autônomo, não dois:

O sistema nervoso saudável transita entre esses estados de forma flexível. O sistema nervoso traumatizado fica preso — geralmente no simpático (ansiedade crônica, insônia, tensão) ou no dorsal (apatia, fadiga crônica, "neblina mental"). Em ambos os casos, o corpo esqueceu como voltar ao estado ventral por conta própria.

A hipervigilância: quando o alarme não silencia

Depois de experiências difíceis — sejam elas únicas e intensas ou repetidas e silenciosas —, o corpo pode aprender que o perigo está sempre por perto. Passamos a reagir a sinais que, hoje, não representam risco real: um tom de voz um pouco mais firme, uma data no calendário, um cheiro, uma música, um jeito específico de alguém se mover. A resposta é automática e acontece antes de qualquer raciocínio.

Isso é o que chamamos de hipervigilância. Não é exagero, fraqueza, falta de fé ou frescura. É um sistema que aprendeu a fazer seu trabalho bem demais — e agora dispara mesmo sem motivo aparente.

É por isso que "tentar se acalmar" raramente basta. Falar "relaxa, não é nada" para alguém em hipervigilância é como falar "não sente dor" para alguém com o dedo queimado. A percepção de ameaça não está no pensamento — está em camadas mais profundas, ligadas à memória implícita e ao corpo. Por isso o trabalho terapêutico precisa alcançar esse nível.

Sinais de que o corpo está em hipervigilância

Reconhecer os sinais é o primeiro passo. Alguns são sutis, outros muito intensos:

Se você se reconhece em vários desses pontos, vale considerar que não é "ansiedade à toa" — é o corpo cumprindo uma promessa antiga de proteção. A boa notícia: promessas podem ser reescritas.

De onde vem esse estado? As raízes da hipervigilância

O estado de alerta sustentado pode ter origens em diferentes tipos de experiência. Algumas são óbvias — outras, nem tanto.

Traumas únicos e intensos

Acidentes graves, violências, perdas súbitas, abusos. Quando o evento é grande o suficiente, o corpo gruda nele. A memória fica "presa" — e cada vez que algo lembra o corpo daquele momento, o sistema dispara. É como se o corpo estivesse revivendo o perigo toda vez, sem conseguir arquivá-lo no passado.

Traumas repetidos e relacionais

Muitas pessoas que vivem em estado de alerta não passaram por um único evento catastrófico. Cresceram em ambientes onde o perigo era cotidiano — violência doméstica, abuso emocional, negligência, instabilidade. Nesses casos, o corpo aprende desde cedo que o mundo não é seguro, e essa crença vira o pano de fundo da vida adulta.

Traumas "menores" que não são menores

Na clínica, é comum ouvir pessoas dizerem: "mas nada tão grave aconteceu comigo". Essa é uma das frases mais frequentes — e mais importantes. Acontece que o que importa não é a magnitude objetiva do evento, mas o que ele significou para aquela pessoa, naquela idade, com aqueles recursos. Uma crítica constante de um pai, uma separação abrupta, um bullying prolongado, uma cirurgia na infância — tudo isso pode instalar um estado de alerta duradouro, mesmo que, de fora, pareça "pouca coisa".

A neurobiologia: por que o corpo "lembra" mais que a mente

Bessel van der Kolk, em The Body Keeps the Score (2014), passou décadas mostrando que o trauma não fica armazenado apenas como narrativa — ele se imprime no corpo. Há várias camadas envolvidas:

Entender essa arquitetura ajuda a explicar por que técnicas baseadas apenas em "pensar diferente" — afirmações positivas, tentar convencer-se de que está tudo bem — costumam falhar. O problema não é o pensamento: é o corpo. E o corpo precisa ser acessado de outra forma.

O que a terapia pode fazer — caminhos terapêuticos baseados em evidência

A boa notícia é que, nas últimas décadas, surgiram abordagens terapêuticas que acessam o corpo e o sistema nervoso de forma direta. Não são modismos: são métodos com décadas de pesquisa, reconhecidos por organizações como a Organização Mundial da Saúde, a APA (American Psychological Association) e o NICE (National Institute for Health and Care Excellence, do Reino Unido).

EMDR — Reprocessamento por meio de movimentos oculares

O EMDR (Eye Movement Desensitization and Reprocessing) foi desenvolvido por Francine Shapiro na década de 1980 e, hoje, é uma das abordagens mais estudadas para trauma. A técnica usa estimulação bilateral — geralmente movimentos oculares, mas pode ser toques ou sons alternados — enquanto a pessoa acessa a memória traumática em doses pequenas. O que acontece é que o cérebro reprocessa a memória, integrando-a ao passado em vez de mantê-la congelada no presente.

Em sessões de EMDR, é comum que a pessoa perceba que a memória ainda existe — ela não é apagada —, mas que perdeu o peso emocional. "Eu lembro, mas não dói mais" é uma frase recorrente entre pacientes ao final do processo. A melhor parte, como uma paciente me disse recentemente, é que "eu não preciso ficar contando e explicando tudo o que aconteceu" — o trabalho terapêutico acessa o conteúdo por vias que a fala não alcança.

Brainspotting — Onde o olhar encontra a memória

O Brainspotting, criado por David Grand em 2003, parte de uma descoberta elegante: a posição dos olhos está conectada a áreas específicas do cérebro onde memórias emocionais ficam armazenadas. Ao encontrar um "ponto no campo visual" que ressoa com a memória, o terapeuta trabalha com a pessoa naquele foco, e o corpo entra em um processo de reorganização profunda.

O Brainspotting é particularmente útil quando o sofrimento não tem palavras — ou quando falar sobre o trauma parece impossível. A técnica opera diretamente no subcórtex, onde a linguagem não chega. É especialmente indicada para quem sente que "a terapia de fala comum não está dando conta".

Abordagem somatossensorial — Ogden e a regulação pelo corpo

Pat Ogden, em Trauma and the Body (2006), desenvolveu um modelo que integra a leitura corporal à terapia verbal. A ideia é simples e revolucionária: o corpo carrega a história, e aprender a ler seus sinais (tensão, postura, respiração) é parte essencial da cura. Em minha prática, uso elementos dessa abordagem junto com EMDR e Brainspotting — e o resultado é, em geral, mais profundo e duradouro.

O que esperar de um processo terapêutico

Quando alguém chega ao consultório dizendo "estou assim há anos, será que ainda dá tempo?", a resposta que sempre dou é: sim, dá tempo. O corpo pode reaprender. Mas o processo tem suas etapas.

Fase 1: Estabilização e segurança

Antes de tocar em qualquer memória difícil, o primeiro trabalho é construir uma base de regulação. Você aprende recursos para se acalmar, se ancorar, se conter quando o alarme dispara no dia a dia. É como construir uma caixa de ferramentas antes de entrar em uma tempestade.

Fase 2: Reprocessamento

Com os recursos disponíveis, entramos no trabalho com as memórias que ficaram presas. EMDR, Brainspotting ou uma combinação deles, dependendo do que faz mais sentido para cada pessoa. Esse é o momento em que as memórias perdem carga emocional e passam a ser coisas que aconteceram, em vez de coisas que estão acontecendo.

Fase 3: Integração

Por fim, integramos o que mudou. Novos padrões de relação, novos limites, uma relação diferente com o próprio corpo. A vida não venta "fácil" — mas fica mais habitável. O alarme continua existindo, mas agora é só um alarme, e não mais um veredito.

O que começa quando o alarme silencia

Quando o corpo entende que o perigo já passou, coisas pequenas voltam a ser possíveis. Dormir sem medo. Sair de casa sem checar três vezes a porta. Ouvir uma música que antes apertava o peito e sentir só nostalgia. Encontrar alguém sem precisar fazer uma varredura constante de quem essa pessoa é. Olhar para trás e dizer: "aquilo aconteceu, mas eu não sou mais só aquilo".

Sair do estado de alerta não é "relaxar mais". É ajudar o corpo a entender que ele pode, finalmente, descansar.

Não se trata de apagar a memória. Trata-se de devolver a ela o seu lugar no passado — onde ela pode ser lembrada sem ser revivida.

Reconheceu algo aqui?

Se algumas dessas palavras descreveram o que você sente, talvez seja hora de conversar. O primeiro passo pode ser uma escuta inicial, sem compromisso.

Conversar
Dra. Mariana Lage, CRP 01/8814

Sobre a autora

Dra. Mariana Lage · CRP 01/8814 · Psicóloga Clínica

Especialista em trauma, com formação em EMDR pelo TraumaClinic / EMDR Brasil e em Brainspotting pelo método do Dr. David Grand. Atendimento online para o Brasil e brasileiras no exterior. Atua com base na Teoria Polivagal, na abordagem somatossensorial de Ogden e nos protocolos de reprocessamento.

Ansiedade Hipervigilância Trauma Regulação Emocional Sistema Nervoso EMDR Brainspotting
Para aprofundar
Trauma · 8 min · PT-BR

Lidando com a Hipervigilância

Canal Alan Mocellim — uma abordagem direta sobre o corpo em estado de alerta constante.

Trauma · 90 min · PT-BR

Traumas da infância, depressão e saúde mental

PODPEOPLE INVERSO com Dra. Ana Beatriz Barbosa — conversa aprofundada sobre os efeitos do trauma no corpo e na mente.

Referências
  1. [1] Shapiro, F. (2017). EMDR: Uma terapia inovadora para superar trauma e estresse. Porto Alegre: Artmed.
  2. [2] Grand, D. (2013). Brainspotting: A nova dimensão para superar trauma e estresse. São Paulo: Cultrix.
  3. [3] Van der Kolk, B. (2014). The Body Keeps the Score: Brain, Mind, and Body in the Healing of Trauma. Nova York: Viking.
  4. [4] Ogden, P., Minton, K., & Pain, C. (2006). Trauma and the Body: A Sensorimotor Approach to Psychotherapy. Nova York: Norton.
  5. [5] Levine, P. (2010). In an Unspoken Voice: How the Body Releases Trauma and Restores Goodness. Berkeley: North Atlantic Books.
  6. [6] Porges, S. (2011). The Polyvagal Theory: Neurophysiological Foundations of Emotions, Attachment, Communication, and Self-regulation. Nova York: Norton.
  7. [7] World Health Organization. (2013). Guidelines for the management of conditions specifically related to stress. Geneva: WHO.
  8. [8] American Psychological Association. (2017). Clinical Practice Guideline for the Treatment of Posttraumatic Stress Disorder. Washington, DC: APA.

As referências listadas são obras fundamentais da área de trauma e regulação do sistema nervoso. Este artigo é de caráter informativo e não substitui avaliação clínica individualizada. Se você se identifica com o que está descrito, considere buscar acompanhamento com profissional habilitado.

Dra. Mariana Lage
Se algo aqui ressoou com você

Podemos conversar sobre o seu momento, sem compromisso.

WhatsApp