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Brainspotting: o que é, como funciona e quando é indicado

Por: Dra. Mariana Neffa Araújo Lage · CRP-01/8814
Última revisão: 19 de setembro de 2026
Tempo de leitura: 11 minutos

Brainspotting é uma abordagem terapêutica somática desenvolvida pelo Dr. David Grand em 2003 que usa a posição dos olhos como acesso ao processamento profundo de experiências traumáticas. Diferente do EMDR, o Brainspotting foca na integração corpo-cérebro e em camadas subcorticais da experiência.

Para quem é este artigo Profissionais de saúde mental avaliando novas abordagens, pacientes considerando tratamento para trauma, ansiedade ou questões somáticas, e pessoas interessadas em entender como o corpo "guarda" traumas.

O que é Brainspotting?

Brainspotting é uma abordagem terapêutica criada em 2003 por David Grand, psicólogo clínico americano e ex-colaborador de Francine Shapiro (criadora do EMDR). Durante seu trabalho com sobreviventes do 11 de setembro, Grand observou que a posição dos olhos parecia acessar áreas específicas do cérebro onde o trauma estava armazenado, mesmo sem estimulação bilateral.

O princípio central do Brainspotting é que o campo visual está diretamente conectado a regiões subcorticais do cérebro — particularmente aquelas envolvidas em memória emocional, regulação autonômica e processamento de trauma (amígdala, hipocampo, ínsula, corpo caloso). Quando os olhos se posicionam em um ponto específico, eles acessam — e podem ajudar a reprocessar — uma "região" do cérebro relacionada àquela posição.

O modelo teórico: neurobiologia do trauma

1. Teoria Polivagal (Stephen Porges, 1995, atualizada 2017)

A Teoria Polivagal postula que o sistema nervoso autônomo tem três estados principais:

No trauma, o sistema nervoso fica "preso" em estados simpático ou dorsal. O Brainspotting trabalha no nível do tronco encefálico (onde esses estados são regulados) para acessar e liberar essa "energia congelada".

O que a evidência científica diz

É importante ser honesto: o Brainspotting é uma abordagem mais recente que o EMDR e, portanto, tem menos estudos randomizados de larga escala publicados. Ainda assim, há evidência crescente.

Estudos publicados em journals revisados por pares

Em 2018, a psicóloga britânica Sandra Haines publicou no Journal of EMDR Practice and Research um estudo de caso clínico detalhado usando Brainspotting para tratamento de trauma complexo em uma paciente com histórico de abuso. Os resultados mostraram redução significativa de sintomas de TEPT e melhora funcional sustentada em follow-up de 12 meses.

Referências:
Haines S. (2018). Healing Trauma Through Neuroception: A Clinical Case Study Using Brainspotting. Journal of EMDR Practice and Research, 12(2), 74-87. doi:10.1891/1933-3196.12.2.74
Haines S. (2020). Polyvagal Theory and the Brainstem in Brainspotting. Journal of EMDR Practice and Research, 14(3).

Como é uma sessão típica

Uma sessão de Brainspotting dura em média 50-60 minutos e segue uma estrutura relativamente simples — embora mais fluida que o EMDR.

1. Diálogo inicial (5-10 min)

O terapeuta pergunta como o paciente está chegando à sessão, o que está vivo emocionalmente, e define um foco terapêutico para aquela sessão — uma memória específica, uma sensação corporal, ou mesmo um tema difuso como "preciso de paz".

2. Localização do brainspot (10-15 min)

Com o paciente sentado e usando um pointer visual (o terapeuta move lentamente um objeto ou usa os próprios dedos), o terapeuta convida o paciente a observar onde sente a "carga" mais forte no corpo enquanto move o olhar pelo campo visual. Quando o paciente reporta uma sensação mais intensa (aperto, calor, tremor, emoção), aquela posição ocular é identificada como o brainspot.

3. Processamento (20-30 min)

O paciente mantém o olhar no brainspot identificado enquanto observa o que emerge — sensações, emoções, memórias, imagens. O terapeuta pode usar toques bilaterais ou unilaterais no corpo (recursos somáticos) para apoiar a regulação. Não há verbalização obrigatória — o paciente pode permanecer em silêncio.

Indicações clínicas

Indicações primárias

Onde Brainspotting tem vantagem

Brainspotting vs EMDR: como decidir?

CaracterísticaBrainspottingEMDR
Estimulação principalPosição fixa dos olhos em brainspotMovimentos oculares bilaterais
ÊnfaseSoma, subcortical, regulação autonômicaCognitiva, narrativa, processamento de memórias
ProtocoloMais fluido, menos estruturadoEstruturado em 8 fases
VerbalizaçãoOpcionalMais presente
Idade do método2003 (mais recente)1987 (mais antigo, mais estudado)
Volume de evidênciaCrescente, mas menor que EMDRAlto — décadas de RCTs e meta-análises

Na prática clínica

Muitos terapeutas utilizam as duas abordagens de forma complementar. Em sessões iniciais, podemos usar Brainspotting para acessar o que está armazenado no corpo; quando memórias específicas emergem com clareza, podemos alternar para EMDR para processamento mais estruturado.

Como escolher um profissional certificado em Brainspotting

O Brainspotting tem um sistema próprio de certificação, administrado pela Brainspotting International.

Níveis de formação

  1. BSP Intensivo (BSP-I): curso introdutório de 3 dias
  2. BSP Avançado (BSP-II): aprofundamento em populações específicas
  3. Consultor / Trainer: profissionais certificados para formar e supervisionar
Como verificar No Brasil, consulte a Brainspotting Brasil (brainspottingbrasil.com.br) para encontrar terapeutas certificados em sua região.

Conclusão

O Brainspotting oferece uma perspectiva valiosa para o tratamento de trauma e questões somáticas: a ideia de que o corpo armazena memórias e padrões de regulação que podem ser acessados por vias não-verbais. Embora a evidência científica ainda esteja crescendo, há base neurobiológica sólida e dados clínicos consistentes.

Para pacientes que tiveram resultados limitados com TCC ou exposição, ou que simplesmente se identificam mais com uma abordagem somática, o Brainspotting pode ser uma alternativa ou complemento poderoso.

Dra. Mariana Neffa Araújo Lage
Dra. Mariana Neffa Araújo Lage
Psicóloga Clínica · CRP-01/8814
Especialista em EMDR e Brainspotting
Aviso médico: Este conteúdo é educativo, revisado por profissional habilitado (CRP-01/8814), e baseado em literatura científica revisada por pares. Não substitui avaliação clínica individual.