← Voltar para o blog
Trauma Geracional · 7 min de leitura · Por Dra. Mariana Lage, CRP 01/8814

Padrões que atravessam gerações — e como interrompê-los

Fotografia antiga sobre superfície de madeira com luz suave — representação de herança familiar
O que herdamos, podemos escolher transformar.

Essas vivências não são defeito seu. São heranças. E, embora você não tenha escolhido recebê-las, pode escolher o que faz com elas.

O que significa "trauma geracional"

Por décadas, acreditou-se que o trauma era algo vivido pela pessoa — e, portanto, da história dela. Mas a pesquisa das últimas décadas mostrou que trauma pode ser passado adiante, mesmo sem vivência direta. Há dois mecanismos principais:

Esses dois mecanismos se sobrepõem e se reforçam. O resultado é que, mesmo em famílias onde "nada tão grave aconteceu" (ao menos na aparência), há marcas emocionais que atravessam gerações — invisíveis, mas profundamente sentidas.

Padrões que se repetem: apego e regulação

Um dos campós onde a transmissão geracional é mais estudada é o dos estilos de apego. John Bowlby e, depois, Mary Ainsworth mostraram que as crianças desenvolvem modelos internos de relação a partir do tipo de cuidado que recebem:

Esses estilos tendem a se repetir na vida adulta — na escolha de parceiros, no estilo parental, nas relações profissionais. Mas não estão gravados em pedra. A consciência deles é o primeiro passo para escolher diferente.

O que Bowen nos ensinou

Murray Bowen, um dos pioneiros da terapia familiar, propôs o conceito de diferenciação: a capacidade de estar em contato emocional com a família sem se perder nela. Pessoas bem diferenciadas conseguem manter seu eixo, suas crenças e seu sentimento de si, mesmo quando a família pressiona para que se conformem. Pessoas pouco diferenciadas acabam absorvendo ansiedades, expectativas e padrões do sistema familiar — repetindo o que viram, sem perceber.

A terapia, para Bowen, é o espaço onde essa diferenciação se constrói. Não contra a família — mas a partir de uma pósição interna mais solida. Quando você se diferencia, o sistema ao seu redor inevitavelmente também começa a mudar.

A epigenética: o corpo como arquivo

A epigenética trouxe, nos últimos vinte anos, uma das descobertas mais importantes da biomedicina: o ambiente emocional dos nossos pais e avós pode ter marcado nossos genes de formas que afetam como respondemos ao estresse, à ansiedade, à dor.

Estudos com descendentes de pessoas que passaram por grandes fomes, guerras, perseguições, encontraram padrões consistentes: maior vulnerabilidade a ansiedade, depressão, síndrome metabólica. Não porque os genes tenham "mutado" — mas porque sua expressão foi modificada por sinais químicos que atravéssaram as gerações.

Essa descoberta é revolucionária e, ao mesmo tempo, controversa. Ainda há muito a se entender sobre como essas marcas se transmitem e em que medida elas são maleáveis. Mas uma coisa é clara: você não é apenas a sóma dos seus genes, e nem tampouco apenas a sóma das suas vivências. Você é a interação entre ambos, mediada pelo que veio antes de você.

Como interromper o ciclo

A boa notícia — e há uma boa notícia — é que padrões geracionais podem ser interrompidos. Não é fácil, não é rápido, e quase nunca é um trabalho que se faz sozinho. Mas é possível. Algumas formas:

Reconhecer o padrão

O primeiro passo é ver. Sem julgamento, sem culpa, sem "cobertura" racional. Reconhecer: "eu estou repetindo algo que vi antes de mim". Pode ser na forma como você briga com seu parceiro, na forma como trata seus filhos, na forma como reage ao erro, na forma como cuida de si mesma. Olhar para issó, com honestidade, já é uma forma de interrupção.

Buscar terapia

A terapia individual é, com frequência, o espaço mais eficaz para interromper padrões geracionais. Em sessões regulares, com um profissional que entenda o tema, é possível identificar de onde vêm certas reações, processar traumas herdados (mesmo sem vivência direta), e construir formas novas de se relacionar.

Abordagens como EMDR, Brainspotting e a terapia somatossensórial são especialmente úteis, porque acessam camadas onde os padrões estão inscritos — no corpo, no subcórtex, em redes neurais formadas antes mesmo da memória consciente.

Construir recursos internos

Quanto mais recursos internos você tem — regulação emocional, autoconhecimento, vínculos seguros, capacidade de pedir ajuda —, menos vulnerável você fica aos padrões herdados. Esses recursos podem ser desenvolvidos na vida adulta, mesmo que tenham faltado na infância.

Criar novas experiências

Cada vez que você responde de forma diferente a uma situação em que o padrão antigo pediria a reação habitual, você está criando uma nova marca no sistema nervoso. Com o tempo, essas novas experiências se acumulam e reconfiguram o que antes parecia inevitável.

Reconhecer o que veio antes de você

Grande parte do trabalho geracional envolve olhar para os seus pais, avós, antepassados — não para culpá-los, mas para entender. Eles também foram marcados. Eles também transmitiram o que puderam, com os recursos que tinham. Reconhecer issó ajuda a liberar a raiva que, muitas vezes, mantém o padrão em movimento.

O que você herdou não é seu destino. É o ponto de partida. O caminho a partir dele é seu.

Um cuidado para as próximas gerações

Quando você interrompe um padrão, você não está fazendo issó só por si. Está, ao mesmo tempo, modificando o que será herdado pelas próximas gerações. Crianças que crescem vendo um pai ou mãe que conseguiu tratar seus traumas de outra forma, que aprendeu a regular emoções sem violência, que conseguiu construir relações mais saudáveis, herdam issó. Não por epigenética apenas — por vivência, por exemplo, por afeto.

Interromper padrões geracionais é, portanto, também um ato de cuidado com aqueles que virão depois de você. Mesmo que você nunca os conheça.

Começar onde você está

Você não precisa entender tudo sobre sua árvore genealógica para começar. Não precisa conversar com seus pais ou avós sobre o que viveram. Pode começar pelo que percebe em si mesma: os padrões que se repetem, as reações que parecem automáticas, os medos que não têm história clara.

Reconhecer onde você está, hoje, no presente, com compaixão — esse é o ponto de partida. O resto vai se revelando, no seu ritmo, no seu tempo.

Reconheceu algo aqui?

Se algumas dessas palavras descreveram o que você sente, talvez seja hora de conversar. O primeiro passo pode ser uma escuta inicial, sem compromisso.

Conversar
Dra. Mariana Lage, CRP 01/8814

Sobre a autora

Dra. Mariana Lage · CRP 01/8814 · Psicóloga Clínica

Especialista em trauma, com formação em EMDR pelo TraumaClinic / EMDR Brasil e em Brainspotting pelo método do Dr. David Grand. Atendimento online para o Brasil, brasileiras no exterior e estrangeiros que falam inglês.

Para aprofundar
Trauma · 90 min · PT-BR

Traumas da infância e saúde mental

Como traumas na infância ecoam na vida adulta e nas relações.

Apego · 14 min · PT-BR

Apego evitativo x apego ansiosó

Estilos de apego formados na infância e como se manifestam.

Referências
  1. [1] Yehuda, R., et al. (2016). Holocaust Exposure Induced Intergenerational Effects on FKBP5 Methylation. Biological Psychiatry.
  2. [2] Bowers, M., & Yehuda, R. (2016). Intergenerational Transmission of Stress in Humans. Neuropsychopharmacology.
  3. [3] Bowen, M. (1978). Family Therapy in Clínical Practice. Nova York: Jason Aronson.
  4. [4] Van der Kolk, B. (2014). The Body Keeps the Score. Nova York: Viking.
  5. [5] Herman, J. (1992). Trauma and Recovery. New York: Basic Books.
  6. [6] Wolynn, M. (2016). It Didn't Start with You [Não começou com você]. Nova York: Viking. Título em português publicado pela Editora Alaúde (2017).

As referências listadas são obras fundamentais da área de trauma e regulação do sistema nervoso. Este artigo é de caráter informativo e não substitui avaliação clínica individualizada.