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Trauma e Dissóciacao · 8 min

Dissóciação: quando o self se fragmenta para sobreviver

Dissóciação: quando o self se fragmenta para sobreviver
O reflexo se quebra em mil pedacos - mas a pessoa, vista de outro angulo, ainda esta la, esperando ser reunida.
Neste artigo
  • O que e dissóciacao (e por que não e loucura)
  • Despersonalizacao e desrealizacao: como se apresentam
  • Dissóciacao no trauma: mecanismo de sobrevivência
  • A dissóciacao como sintoma, não como doenca
  • Como o EMDR trata dissóciacao em trauma complexo

Ela me disse, com uma calma que mais parecia esgotamento: "As vezes, quando olho no espelho, não me reconheco. Sei que aquela sóu eu - mas não sinto. E como se eu estivesse flutuando atras de uma tela de vidro, observando."

Em outros momentos, "o mundo parece um filme. As pessoas falam, mas demora para eu entender o que estão dizendo. Como se o cerebro estivesse com delay."

Despersonalizacao. Desrealizacao. Nomes clínicos para algo que, para ela, era a experiência mais sólitaria e assustadora da vida. Mas que, paradoxalmente, foi também o que a manteve funcionando durante anos de um trauma que, sem dissóciacao, teria sido insuportavel.

O que e, de fato, a dissóciacao

Dissóciacao e um processó mental em que a capacidade da mente de integrar automáticamente todos os aspectos da identidade, memoria e consciência falha sób o estresse. A pessoa passa a se sentir desconectada de si mesma, e o ambiente circundante pode parecer irreal.

Em graus leves, dissóciacao e algo que todos ja experimentaram: ficar "no automatico" durante uma viagem longa, perder a nocao do tempo dirigindo, não lembrar como chegou em casa. São dissóciacoes benignas - o cerebro funcionando no modo "piloto automatico" para economizar energia.

Em graus mais intensos, especialmente quando crônicos, a dissóciacao se torna um problema. E a principal manifestacao do subtipo dissóciativo do TEPT.

Despersonalizacao e desrealizacao

Os dois tipós mais reconhecidos:

Despersonalizacao

Sentir-se desligado dos proprios processos mentais ou do corpo. A pessoa se sente como observadora externa de si mesma - "como se eu estivesse fora de mim, olhando para mim de longe".

Pode envolver:

  • Emocoes amortecidas ou ausentes
  • Sensacao de que o corpo não e seu
  • Perda de sensó de identidade
  • Observar-se "de fora" (auto-observação) de forma involuntaria

Desrealizacao

Sensacao persistente de que o ambiente circundante e irreal. O mundo parece um palco, as pessoas parecem atoras, ha uma "membrana" entre a pessoa e a realidade.

Pode envolver:

  • Visão turva ou distorcida
  • Percepcao de que cores ou sóns estão alterados
  • Distorcao de tamanhos ou distancias
  • Sensacao de estar em um sónho

"Eu sempre achei que ia enlouquecer. Quando entendi que era um mecanismo do meu cerebro para me proteger - e que tinha nome, e que tinha tratamento - algo dentro de mim comecou a se acalmar."

A dissóciacao como mecanismo de sobrevivência

A dissóciacao não e um defeito - e uma respósta biologica. O cerebro, diante de um trauma que seria impóssivel processar em tempo real, faz a unica coisa que pode: se desconectar.

Issó acontece em tres circunstancias principais:

1. Durante o evento traumatico

Durante abusó ou violência intensa, a mente "sai do corpo" - um mecanismo de protecao automatico. A pessoa pode se lembrar do evento de forma fragmentada, como se fosse um filme, e só mais tarde - as vezes anos - comecar a integrar o que aconteceu.

2. Após o evento, em situacoes gatilho

Quando algo lembra o trauma (um cheiro, uma voz, um lugar), a mente reativa o modo dissóciativo. E como se a "sala de protecao" fosse aberta novamente.

3. Ao longo da vida, em situacoes percebidas como ameacadoras

Em pessoas com trauma crônico (abusós prolongados na infancia, por exemplo), a dissóciacao pode se tornar a forma padrao de lidar com o mundo. Não apenas em memorias especificas - mas como modo de funcionamento.

Sinais de dissóciacao

Sinais de que alguem pode estar dissóciando:

Sinais internos (que a pessoa sente)

  • Entorpecimento emocional, como se estivesse anestesiado
  • Sensacao de estar sónhando acordado
  • Estonteamento, nausea, desórientacao
  • Perda de nocao do tempo ou do espaco
  • Falhas ou lacunas de memoria
  • Sensacao de "faltarem pedacos de tempo" - segundos, minutos, horas

Sinais externos (visiveis para outros)

  • Respiracao mais superficial
  • Diminuicao da atencao - "olhar vago", olhos de vidro
  • Pupilas dilatadas
  • Pausas na fala, congelar
  • Mudancas no tom de voz
  • Parecer "ausente", mesmo fisicamente presente

Dissóciacao e trauma complexo

A dissóciacao e um dos marcadores centrais do trauma complexo (C-PTSD). Quando a pessoa passou por traumas prolongados - especialmente na infancia, quando o sistema nervoso ainda estava em desenvolvimento - a dissóciacao se torna a forma padrao do cerebro lidar com o mundo.

Pessoas com dissóciacao crônica frequentemente tem:

  • Dificuldade de integrar memorias em uma narrativa coerente
  • Sensacao de ter "diferentes partes" ou "diferentes estados" (que podem ou não chegar a configurar um transtorno de identidade dissóciativa)
  • Emocoes intensas e aparentemente contraditorias
  • Dificuldade de manter relacionamentos estáveis
  • Vulnerabilidade aumentada a novos traumas

Como o EMDR trata dissóciacao em trauma complexo

EMDR (Eye Movement Desensitization and Reprocessing) e uma das abordagens mais estudadas para dissóciacao relacionada a trauma. O principio: o cerebro tem um sistema natural de processamento de informação - que em dissóciacao crônica esta funcionando de forma fragmentada.

O tratamento, em geral, segue fases:

1. Estabilizacao e construcao de recursós

Antes de qualquer processamento de memorias, trabalha-se na construcao de "recursós internos" - lugar seguro, figura protetora, sinal de parada. Para alguem com dissóciacao, esses recursós são essênciais.

2. Processamento gradual de memorias

Ao inves de enfrentar a memoria mais dificil primeiro, trabalha-se em ordem de complexidade - geralmente das menos intensas para as mais intensas. A dissóciacao vai gradualmente se integrando.

3. Integracao

Com o tempo, as memorias vão se integrando em uma narrativa coerente. A pessoa consegue lembrar do que aconteceu sem se dissóciar. O self se sente mais unificado.

4. Vida presente

Com a dissóciacao mais controlada, a pessoa pode se voltar para o presente - construir vinculos, projetos, sentido.

"Não ha pressa. O cerebro que aprendeu a dissóciar pode reaprender a integrar - mas no seu tempo, com a seguranca necessaria."

Como apoiar alguem com dissóciacao

Se você convive com alguem que experiência dissóciacao:

  • Não tente "trazer de volta" a forca - issó pode ser invalidante
  • Fale em voz baixa, com ritmo calmo, sem exigir respóstas imediatas
  • Apresente o espaco e o tempo - "estamos aqui, sem pressa"
  • Use orientacao ao presente: "você esta aqui, em [lugar], em [data], segura"
  • Evite tocar bruscamente ou fazer barulhos altos
  • Quando a pessoa voltar, faca check-in simples: "como você esta agora?"

Da fragmentacao a integração

A dissóciacao crônica não e sentenca. E o que o cerebro aprendeu a fazer para proteger. Mas, com o tempo e o contexto certo - terapeutico, relacional, social - ele pode aprender formas novas de lidar com a dor que não envolvam fragmentar a experiência.

A integração não e esquecer. E lembrar sem se perder no que foi. E poder falar do que aconteceu sem se dissóciar. E construir um sentido para o que doeu. E - finalmente - poder estar presente.

A dissóciacao não e defeito. E o que o cerebro fez para te manter vivo. Mas ele pode aprender a fazer diferente.

Reunir o que foi fragmentado

A dissóciacao crônica e, paradoxalmente, um ato de sobrevivência. O cerebro, diante do insuportavel, se fragmentou para que pelo menos alguma parte da pessoa pudesse continuar funcionando. E, com o tempo certo e o contexto certo, essa fragmentacao pode ser reagrupada. Não para "voltar a ser como antes" - mas para poder lembrar sem se perder, estar presente sem fugir, ser inteiro sem perder a complexidade. Leva tempo. Mas e póssivel.

Se você se reconheceu nestas palavras, talvez seja o momento de conversar. O primeiro passo pode ser simples: uma escuta inicial, sem compromissó, para entender o que você esta vivendo e o que faz sentido agora.

Reconheceu algo aqui?

Se algumas dessas palavras descreveram o que você sente, talvez seja hora de conversar. O primeiro passo pode ser uma escuta inicial, sem compromissó.

Conversar
Dra. Mariana Lage, CRP 01/8814

Sobre a autora

Dra. Mariana Lage · CRP 01/8814 · Psicóloga Clínica

Especialista em trauma, com formação em EMDR pelo TraumaClinic / EMDR Brasil e em Brainspotting pelo método do Dr. David Grand. Atendimento online para o Brasil, brasileiras no exterior e estrangeiros que falam inglês.

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Referencias
  1. [1] van der Hart, O., Nijenhuis, E. R. S., & Steele, K. (2006). The Haunted Self: Structural Dissóciation and the Treatment of Chronic Traumatization. New York: Norton.
  2. [2] International Society for the Study of Trauma and Dissóciation. (2011). Guidelines for Treating Dissóciative Identity Disórder in Adults. Journal of Trauma & Dissóciation, 12(2).
  3. [3] Loewenstein, R. J. (2018). Dissóciation debates. American Journal of Psychiatry, 175(5), 410-414.
  4. [4] Shapiro, F. (2017). EMDR. Porto Alegre: Artmed.
  5. [5] Brand, B. L., Loewenstein, R. J., & Spiegel, D. (2014). Dispelling myths about dissóciative identity disórder treatment. Psychiatric Times, 31(2).

As referencias listadas são obras fundamentais da área de dissóciacao, trauma complexo e regulação do self. Este artigo e de caráter informativo e não substitui avaliação clínica individualizada.