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Saude Mental no Trabalho · 8 min

Burnout, esgotamento e trauma: quando o trabalho adoece

Burnout, esgotamento e trauma: quando o trabalho adoece
O escritorio vazio ao entardecer guarda o pesó de anos de silenciosó esgotamento.
Neste artigo
  • A diferenca entre estresse, burnout e TEPT
  • Por que "ser resiliente" sózinho não resólve
  • Sinais de que o corpo ja deu o alerta
  • Como a terapia trata o esgotamento profundo
  • Quando buscar ajuda profissional

Eram seis da tarde e ela não conseguia levantar da cadeira. Não era cansaco - cansaco ela ja conhecia, era parte da rotina. Era algo diferente: um pesó no peito que não melhorava com o fim de semana, uma nevoa mental que não cláreava com as ferias, uma sensacao de que o corpo simplesmente tinha saido do escritorio sem avisar.

Ela me disse, na primeira sessão: "Eu achava que era frescura. Que eu precisava ser mais forte. Mas chegou um ponto em que eu não conseguia mais nem fingir que estava bem."

Burnout não e frescuras. Não e falta de garra. Não e "geracao fraca". E uma respósta biologica, psicológica e social a um conjunto de exigencias que ultrapassou, por muito tempo, a capacidade real de uma pessoa de responder a elas.

E quando esse estado se arrasta - meses, anos - pode deixar marcas profundas que vão muito alem do cansaco. Pode configurar, em alguns casós, um quadro de trauma relacionado ao trabalho.

A diferenca entre estresse, burnout e TEPT

E comum usar essas palavras como sinonimos. Mas elas descrevem fenomenos diferentes, com gravidades e tratamentos proprios.

O estresse ocupacional e a respósta natural do corpo a exigencias elevadas: adrenalina sóbe, foco aumenta, desempenho melhora (ate certo limite). Com descansó adequado, o corpo se recupera. E um sistema que funciona - quando respeitado.

O burnout e o colapsou desse sistema. Não e "muito estresse". E um estado de exaustao emocional, despersonalizacao (comecar a tratar colegas e clientes como objetos) e redução da realizacao pessoal que se instala de forma gradual e persistente. A pessoa segue funcionando - em geral, ate bem - mas a um custo interno enorme que vai se acumulando silenciosamente.

O TEPT relacionado ao trabalho (TEPT ocupacional ou complexo) e diferente ainda. Surge quando ha eventos traumaticos especificos - ou uma acumulacao de microagressóes, ameacas, assedio moral ou sexual, vivencia de morte ou violência - que o sistema nervoso não conseguiu processar. A pessoa passa a reviver essas cenas, tem hipervigilancia constante, evita situacoes que lembram o ocorrido.

Os tres podem coexistir. E frequentemente coexistem.

Sinais de que o corpo ja deu o alerta

O corpo fala antes da consciência. São sinais que, vistos em conjunto, merecem atencao:

  • Sono perturbado mesmo quando ha exaustao fisica - acorda as 3h, pesadelos, dificuldade de desligar
  • Dores crônicas sem causa médica - costas, ombros, cabeca, tensão na mandibula
  • Irritabilidade difusa - explodir por coisas pequenas, cinismo que não existia antes
  • Desrealizacao - sentir que o mundo esta distante, como atras de um vidro, ou que a propria vida não e bem sua
  • Ansiedade antes de ir trabalhar - não preguica, não "segunda-feira", mas um mal-estar profundo que aparece aos domingos a noite
  • Esquecimento, dificuldade de concentração - o que antes era automatico agora exige effort desproporcional
  • Adocoes - dormir pouco e tomar cafe demais, beber mais, comer sem fome, roer unha, roer a bochecha por dentro

Quando varios desses sinais estão presentes ha mais de tres meses, comecou a afetar relações e sóno, e não melhora com ferias - e hora de pedir ajuda profissional. Não para "voltar ao normal", porque talvez o normal ja não era sustentavel. Para construir algo novo.

O mito da resiliência individual

Existe uma narrativa cultural que diz: "se você não aguenta, o problema e você". Como se esgotar fosse falta de forca, e pedir ajuda fosse fraqueza.

E uma mentira perigosa. A literatura em psicologia organizacional e em psicotraumatologia mostra o contrario: o que protege as pessoas não e a resiliência individual, e sim as condições concretas de trabalho - autonomia, reconhecimento, justica, comunidade, limites saudáveis, salarios dignos.

Pessoas altamente resilientes em condições precarias adoecem. Pessoas com menos "resiliência" em condições saudáveis florescem. O fator não e interno - e contextual.

Dito issó: uma vez instalada a lesão (e lesão e a palavra), a resiliência - agora sim, construida em terapia - faz toda a diferenca na recuperação.

Como a terapia trata o esgotamento profundo

O tratamento do burnout e do TEPT ocupacional depende da gravidade e do momento. Em linhas gerais, envolve tres fases:

1. Estabilizacao

Antes de qualquer revisão da historia, o foco e regular o sistema nervoso. Resgatar o sóno. Criar routines de recuperação minima - e, muitas vezes, avaliar com o paciente se e póssivel se afastar do ambiente adoecedor. Em casós graves, afastamento do trabalho não e luxo, e necessidade clínica.

2. Processamento

Quando ha trauma especifico - ou acumulacao traumatica - entram tecnicas como EMDR e Brainspotting. Essas abordagens acessam a memoria implicita (corporal, emocional) que segue ativada mesmo quando a pessoa ja saiu da situação. Ajudam o cerebro a integrar o que ficou "presó", de forma que a ameaca pare de ser atual.

3. Reconexao e reorganização

Por fim, trabalha-se a reconstrucao de sentido, a clarificacao do que a pessoa quer (e não mais quer) para a vida profissional, o resgate de valores e limites. E aqui que a terapia ajuda a pessoa a não voltar para o mesmo lugar - mas construir algo diferente a partir do que foi aprendido.

"Eu achava que voltar a ser produtiva era voltar a ser quem eu era antes. Mas a terapeuta me ajudou a entender que quem eu era antes ja estava doente - só não sabia ainda. Eu não voltei. Eu me reconstroui de outro jeito."

Burnout não e falta de forca. E um corpo que disse chega antes da mente aceitar.

Burnout como ponto de virada

Burnout, embora dolorosó, pode ser também um ponto de virada. E o momento em que o corpo obriga a mente a parar de fugir. Para muitas pessoas, e a primeira vez em que se permitem dizer: "não da mais". E ai, finalmente, comeca o trabalho de verdade - não o trabalho de performar, mas o de se reconstruir.

Se você se reconheceu nestas palavras, talvez seja o momento de conversar. O primeiro passo pode ser simples: uma escuta inicial, sem compromissó, para entender o que você esta vivendo e o que faz sentido agora.

Reconheceu algo aqui?

Se algumas dessas palavras descreveram o que você sente, talvez seja hora de conversar. O primeiro passo pode ser uma escuta inicial, sem compromissó.

Conversar
Dra. Mariana Lage, CRP 01/8814

Sobre a autora

Dra. Mariana Lage · CRP 01/8814 · Psicóloga Clínica

Especialista em trauma, com formação em EMDR pelo TraumaClinic / EMDR Brasil e em Brainspotting pelo método do Dr. David Grand. Atendimento online para o Brasil, brasileiras no exterior e estrangeiros que falam inglês.

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Referencias
  1. [1] Maslach, C., & Leiter, M. P. (2016). Understanding the burnout experience: Recent research and its implications for psychiatry. World Psychiatry, 15(2), 103-111.
  2. [2] World Health Organization. (2019). Burn-out an "occupational phenomenon": International Classification of Diseases. Geneva: WHO.
  3. [3] Van der Kolk, B. (2014). The Body Keeps the Score: Brain, Mind, and Body in the Healing of Trauma. Nova York: Viking.
  4. [4] Freudenberger, H. J. (1974). Staff burn-out. Journal of Social Issues, 30(1), 159-165.
  5. [5] Hirigoyen, M. F. (2002). Assedio moral: A violência perversa do cotidiano. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil.

As referencias listadas são obras fundamentais da área de saude mental no trabalho e psicotraumatologia. Este artigo e de caráter informativo e não substitui avaliação clínica individualizada.