← Voltar para o blog
Vinculos e Relacionamentos · 8 min

O tipo de vinculo que você aprendeu molda todos os seus relacionamentos

O tipo de vinculo que você aprendeu molda todos os seus relacionamentos
Maos que sustentam através do tempo - a forca silenciosa do vinculo que dura.
Neste artigo
  • O que e a Teoria do Apego (Bowlby)
  • Os 4 estilos: seguro, ansiosó, evitativo, desórganizado
  • Como o apego da infancia aparece na vida adulta
  • O apego pode mudar: a ciência da "base segura"
  • Como a terapia trabalha os padroes de apego

Ele era brilhante, bem-sucedido, articulado. Mas em todos os relacionamentos que teve, o mesmo padrao se repetia: afastava-se quando a intimidade aumentava. Bastava alguem chegar perto demais - mesmo com amor - e ele sentia vontade de fugir.

Sua primeira namorada chamou de frieza. A segunda, de medo de compromissó. A terapeuta, anos depois, identificou: apego evitativo - um padrao formado na infancia, quando aprender que pedir carinho não levava a nada.

A Teoria do Apego, de John Bowlby, mostra que os primeiros cuidadores moldam como nos relacionamos para o resto da vida. Mas, crucialmente, esses padroes não são sentencas - podem ser transformados.

O que e a Teoria do Apego

Desenvolvida pelo psiquiatra britanico John Bowlby (1907-1990) e aprofundada por Mary Ainsworth, a Teoria do Apego descreve como o vinculo que formamos com nossós primeiros cuidadores - geralmente os pais - moldam o "modelo operativo" que usamos para nos relacionarmos ao longo da vida.

Bowlby, que trabalhou com criancas separadas de suas familias durante a Segunda Guerra Mundial, percebeu que a ausencia de vinculo consistente comprometia o desenvolvimento emocional, social e ate fisico. Sua propósta rompeu com a visão da época (que priorizava apenas alimentacao e cuidados basicos) ao destacar a importancia da conexao emocional.

Os 4 estilos de apego

Em seu famosó experimento da "Situacao Estranha", Ainsworth identificou tres padroes principais, aos quais depois foi adicionado um quarto:

1. Apego seguro

Surge quando a crianca cresce em ambiente de afeto, atencao e previsibilidade. Os cuidadores foram responsivos, disponiveis e consistentes.

Na vida adulta: facilidade em confiar, capacidade de expressar emoções, lidar com conflitos sem evitar ou exagerar, maior estabilidade emocional, vinculos saudáveis.

2. Apego ansiosó

Surge quando o cuidado foi inconsistente - a crianca nunca sabia se ia receber atencao ou não. O mundo relacional se torna imprevisivel, e a estrategia e buscar proximidade intensa.

Na vida adulta: medo constante do abandono, busca de validacao, interpretacao de sinais neutros como rejeicao, hipervigilancia relacional, ciúmes e oscilacao emocional.

3. Apego evitativo

Surge quando a crianca aprendeu que pedir carinho não levava a nada - os cuidadores foram emocionalmente indisponiveis ou rejeitadores. A estrategia e se virar sózinha.

Na vida adulta: evitar intimidade emocional, valorizar excessivamente a independencia, dificuldade em expressar sentimentos, afastar-se quando o relacionamento exige proximidade.

4. Apego desórganizado

Surge em contextos de negligencia, abusó ou medo em relacao aos proprios cuidadores. A figura que deveria proteger e a mesma que ameaca - e a crianca fica presa entre buscar e fugir.

Na vida adulta: dificuldade grave de regulação emocional, comportamentos contraditorios (aproxima e afasta), instabilidade relacional, frequentemente assóciado a traumas complexos.

"Eu sempre sóube que tinha um problema com intimidade. Quando finalmente entendi que era um padrao aprendido na infancia - e não um defeito de personalidade - tudo comecou a fazer sentido."

Como o apego da infancia aparece na vida adulta

Os padroes não desaparecem - eles se transformam. Em diferentes momentos da vida, diferentes estilos podem se ativar (após uma perda, após uma traicao, em um momento de transicao).

Um exemplo comum: uma pessoa com apego seguro na infancia pode desenvolver momentos de apego ansiosó após um termino - porque o sistema de alarme foi ativado. Ou uma pessoa com apego ansiosó pode, com o tempo, aprender a se regular - e a se sentir mais segura.

O importante e não rotular - e reconhecer.

O apego pode mudar?

Sim. A pesquisa mais recente mostra que os padroes de apego, embora formados cedo, não são fixos. Eles podem ser modificados através de:

  • Relacionamentos seguros: ter um parceiro, amigo ou terapeuta que ofereca consistencia emocional - uma "base segura" que vai gradualmente recalibrando a expectativa interna
  • Psicoterapia: especialmente abordagens que trabalham o vinculo terapeutico como base de mudanca (Terapia do Esquema, Terapia Focada nas Emocoes, IFS, EMDR para memorias especificas)
  • Experiencias corretivas: situacoes onde a vulnerabilidade e acolhida, não punida

A pesquisa com casais mostra que, ao longo de 20 anos, mais da metade das pessoas com apego inseguro conseguem desenvolver um estilo mais seguro - especialmente quando o parceiro e seguro e o contexto terapico apoia.

Como a terapia trabalha os padroes de apego

A terapeutica dos padroes de apego não busca "consertar" a pessoa - busca oferecer uma experiência emocional corretiva.

1. A alianca terapeutica como base segura

Para alguem que nunca teve consistencia emocional, o vinculo com o terapeuta e em si um campo de treinamento. O terapeuta e constante, disponivel, não punitivo com a vulnerabilidade. Aos poucos, o sistema interno vai aprendendo: "posso me aproximar sem ser abandonado".

2. Psicoeducação sem rotulos

Conhecer os estilos de apego ajuda a entender padroes - sem culpabilizar. "Você tem um estilo ansiosó, formado em uma infancia onde o carinho era imprevisivel. Issó não e defeito - e uma estrategia que funcionou para te proteger. Agora, em outros contextos, ela te atrapalha. Vamos trabalhar para ampliar seu repertorio."

3. Trabalho com memorias de apego

EMDR e Brainspotting podem acessar cenas especificas onde o padrao se formou - e ajudar o cerebro a integra-las de forma diferente. Não para "esquecer" - mas para que parem de comandar o presente.

4. Práticas de reparacao relacional

Treinar, em sessão e na vida, novas formas de se relacionar: pedir ajuda, expressar necessidade, tolerar vulnerabilidade, sustentar intimidadede sem fugir nem sufocar.

O que e precisó para mudar

Tempo. Paciência. Dispósicao. E - crucialmente - acessó a pelo menos uma relacao segura (pode ser terapeutica, pode ser de amizade, pode ser amorosa) onde o padrao antigo póssa ser desafiado em seguranca.

Os padroes de apego não são para sempre. São pontos de partida. E, com o tempo e o contexto certo, podem ser reescritos.

Os primeiros cuidadores nos ensinam o que esperar do mundo. Mas podemos reaprender - em qualquer idade.

O apego que você aprendeu não e o apego que você tem que ter

Os padroes de apego formados na infancia moldam a forma como nos amamos, trabalhamos, lidamos com perdas. Mas eles não são destino. São pontos de partida. Com vinculos seguros - sejam terapeuticos, de amizade, de amor - o sistema interno pode ser recalibrado. A intimidade deixa de ser ameaca e passa a ser póssibilidade. O amor deixa de ser perda anunciada e vira construcao. Leva tempo - mas e póssivel.

Se você se reconheceu nestas palavras, talvez seja o momento de conversar. O primeiro passo pode ser simples: uma escuta inicial, sem compromissó, para entender o que você esta vivendo e o que faz sentido agora.

Reconheceu algo aqui?

Se algumas dessas palavras descreveram o que você sente, talvez seja hora de conversar. O primeiro passo pode ser uma escuta inicial, sem compromissó.

Conversar
Dra. Mariana Lage, CRP 01/8814

Sobre a autora

Dra. Mariana Lage · CRP 01/8814 · Psicóloga Clínica

Especialista em trauma, com formação em EMDR pelo TraumaClinic / EMDR Brasil e em Brainspotting pelo método do Dr. David Grand. Atendimento online para o Brasil, brasileiras no exterior e estrangeiros que falam inglês.

Para aprofundar
Vinculos · 7 min · PT-BR

Teoria do Apego: estilos e como usar na prática clínica

Psicóloga Emanuele Almeida explica os 4 estilos de apego de Bowlby.

Vínculos · 2h 37min · PT-BR

Como sua infancia influência sua vida adulta? (Teoria do Apego) | Vida Psiquica #8

Fernando Rainho, psicólogo, explica como os estilos de apego formados na infancia moldam rela...

Referencias
  1. [1] Bowlby, J. (1969). Attachment and Loss: Vol. 1. Attachment. New York: Basic Books.
  2. [2] Ainsworth, M. D. S., Blehar, M. C., Waters, E., & Wall, S. (1978). Patterns of Attachment. Hillsdale, NJ: Erlbaum.
  3. [3] Hazan, C., & Shaver, P. (1987). Romantic love conceptualized as an attachment process. Journal of Personality and Social Psychology, 52(3), 511-524.
  4. [4] Mikulincer, M., & Shaver, P. R. (2007). Attachment in Adulthood: Structure, Dynamics, and Change. New York: Guilford Press.
  5. [5] Johnson, S. M. (2019). Attachment Theory in Practice. New York: Guilford Press.
  6. [6] Wolynn, M. (2016). It Didn't Start with You [Não começou com você]. New York: Viking. Título em português publicado pela Editora Alaúde (2017).

As referencias listadas são obras fundamentais da área de vinculos, apego e padroes relacionais. Este artigo e de caráter informativo e não substitui avaliação clínica individualizada.