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Autoestima e Identidade · 7 min

Autoestima depois do trauma: reconstruir a relacao consigo mesma

Autoestima depois do trauma: reconstruir a relacao consigo mesma
Na superficie tranquila do lago, o que vemos não e a realidade - mas o reflexo. Para se ver de verdade, e precisó coragem de mergulhar.
Neste artigo
  • O que o trauma faz com a autoestima
  • Por que vergonha e culpa persistem depois do perigo
  • A "voz interna" traumatica
  • Reconstrucao: o que ajuda, o que atrapalha
  • O papel da terapia (especialmente EMDR)

"Eu sei que não foi culpa minha. Racionalmente, eu sei. Mas tem uma voz dentro de mim que insiste: se você fosse diferente, issó não teria acontecido."

Ela tinha 38 anos, uma carreira consolidada, e uma historia de relacionamento abusivo dez anos atras. Racionalmente, sabia que o que aconteceu com ela foi escolha do agressór, não falta dela. Mas a voz - aquela voz - seguia ecoando.

O trauma não afeta só a memoria. Afeta a identidade. Afeta o que a pessoa acredita sobre si mesma: "sóu fraca", "sóu culpada", "mereci", "não sóu capaz de me proteger".

O que o trauma faz com a autoestima

Quando uma pessoa passa por uma experiência traumatica - especialmente se envolve um abusó, uma agressão, ou uma violacao de confianca - o efeito na autoestima não e um efeito colateral. E parte central do impacto.

Issó acontece por varios mecanismos:

  • Internalizacao da culpa: o cerebro, tentando encontrar uma explicacao para o que aconteceu, encontra-a em si mesmo - e essa explicacao, mesmo que incorreta, da uma falsa sensacao de controle ("se a culpa e minha, entao eu posso evitar que aconteca de novo")
  • Vergonha como respósta social: muitas sóciedades ainda culpam a vitima (especialmente em casós de violência sexual), e essas mensagens externas são internalizadas
  • Quebra da autoeficacia: depois de um evento traumatico, a pessoa pode sentir que não conseguiu se proteger, que "falhou" - mesmo que não houvesse nada que pudesse ter feito diferente
  • Identificacao com o papel de vitima: em casós crônicos (abusós prolongados), a pessoa passa a se ver através da lente do agressór

Vergonha e culpa: por que persistem

Vergonha e culpa são emoções sociais. Evoluiram para manter a coesão do grupo - e, em condições normais, são úteis: nos dizem quando erramos, quando podemos melhorar.

Em situacoes traumaticas, porém, vergonha e culpa são frequentemente deslocadas: a pessoa sente vergonha ou culpa por coisas que não fez, ou por coisas que não teve escolha. Essa persistencia tem uma funcao: criar a ilusão de que a pessoa ainda tem algum controle sobre o que aconteceu.

Mas a verdade e que vergonha e culpa não resólvem - apenas paralisam.

"A vergonha me dizia que eu era suja. Que eu tinha merecido. Que eu não podia falar sobre aquilo. E por dez anos, eu não falei. ate comecar a terapia."

A "voz interna" traumatica

Muitas pessoas em terapia descrevem uma voz interna critica - que pode sóar como a voz de um agressór, de um progenitor, ou mesmo da propria pessoa em um momento de desespero. Essa voz tem mensagens tipicas:

  • "Você e fraca"
  • "Você e culpada"
  • "Ninguem vai acreditar em você"
  • "Se você contar, sera pior"
  • "Você não merece coisas boas"
  • "Você precisa se virar sózinha"

Identificar essa voz - separa-la do self - e um passo fundamental. A voz não e a pessoa. A voz e uma internalizacao, e pode ser questionada.

O que ajuda na reconstrucao

A reconstrucao da autoestima pós-trauma não e um processó linear. E um caminho com altos e baixos, comecando pela validacao da dor, passando pelo reconhecimento do que foi feito de errado pelo outro (não pela pessoa), e culminando em uma relacao nova - mais realista, mais compassiva - consigo mesma.

O que ajuda:

  • Validacao externa: ter alguem que acredite na sua historia, sem julgamento
  • Ruptura do silencio: contar a historia - para um terapeuta, para um grupo de apoio, para alguem de confianca
  • Reconhecimento das estrategias de sobrevivência: não "fraqueza" o que você fez para sobreviver - foi estrategia, foi coragem, foi resistencia
  • Trabalho somático: yoga, danca, artes marciais, teatro - tudo que ajude o corpo a se reapropriar de si
  • Limites saudáveis: aprender a dizer não, a se proteger, a escolher relacionamentos seguros

O que atrapalha:

  • Ficar presa na narrativa de "eu mereci"
  • Evitar todo e qualquer gatilho (a evitação crônica solidifica a vergonha)
  • Pular etapas do luto
  • Tentar "superar" sózinha, sem apoio
  • Pessoas que reforcam a vergonha (familia, cultura, midia)

O papel do EMDR e do Brainspotting

EMDR e Brainspotting são particularmente eficazes no trabalho de autoestima pós-trauma porque acessam memorias especificas - momentos em que a vergonha foi internalizada, em que a crenca "eu mereci" se cristalizou.

Quando essas memorias são processadas, a carga emocional assóciada a elas diminui. E com ela, a voz critica perde forca. A pessoa passa a ter acessó a uma narrativa diferente - não a que foi impósta, mas a que emerge do proprio processamento.

Em alguns casós, depois de algumas sessões focadas em uma memoria nuclear, a paciente me diz: "Aquela voz ainda aparece, mas agora eu consigo ver que não e minha." Esse e um marco importante.

Reconstrucao não e voltar a ser quem era

Um equívoco comum: pensar que reconstruir a autoestima e "voltar a ser como antes". Mas a pessoa depois do trauma não e mais a mesma. E não precisa ser.

O que se reconstroi não e o self antigo. E um self novo - mais consciente dos proprios limites, mais sabio sobre o que importa, muitas vezes mais compassivo consigo mesmo e com os outros. O trauma, quando elaborado, não desaparece - mas deixa de comandar.

E, com o tempo, a voz interna vai mudando. Em vez de "você não merece", ela pode dizer "você merece coisas boas". Em vez de "você e culpada", "você fez o que podia". Em vez de "você e fraca", "você sobreviveu - e issó e forca".

A importancia do apoio

Reconstruir a autoestima depois do trauma não e um trabalho para se fazer sózinha. Mesmo as pessoas mais resilientes precisam de espaco seguro, de validacao externa, de alguem que ajude a nomear o que foi.

Para algumas pessoas, terapia individual. Para outras, grupo de apoio. Para outras, amigos, parceiros, comunidade. O que importa e não atravéssar sózinha - porque a vergonha se alimenta do silencio, e a cura se alimenta do encontro.

A autoestima não se reconstroi "voltando a ser quem você era". Se reconstroi descobrindo quem você pode se tornar.

Reconstrucao como processó, não como destino

A autoestima pós-trauma não e um lugar que se alcanca e pronto. E uma relacao que se constroi, dia após dia, com paciência e compaixao. Havera dias em que a voz critica volta. Havera dias em que você duvida. Mas, aos poucos, com o apoio certo, a relacao com você mesma vai ficando mais leve, mais justa, mais habitavel.

Se você se reconheceu nestas palavras, talvez seja o momento de conversar. O primeiro passo pode ser simples: uma escuta inicial, sem compromissó, para entender o que você esta vivendo e o que faz sentido agora.

Reconheceu algo aqui?

Se algumas dessas palavras descreveram o que você sente, talvez seja hora de conversar. O primeiro passo pode ser uma escuta inicial, sem compromissó.

Conversar
Dra. Mariana Lage, CRP 01/8814

Sobre a autora

Dra. Mariana Lage · CRP 01/8814 · Psicóloga Clínica

Especialista em trauma, com formação em EMDR pelo TraumaClinic / EMDR Brasil e em Brainspotting pelo método do Dr. David Grand. Atendimento online para o Brasil, brasileiras no exterior e estrangeiros que falam inglês.

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Referencias
  1. [1] Herman, J. L. (1992). Trauma and Recovery. Nova York: Basic Books.
  2. [2] Van der Kolk, B. (2014). The Body Keeps the Score. Nova York: Viking.
  3. [3] Brown, B. (2006). Shame resilience theory. In Shame and guilt (pp. 167-184). Nova York: Guilford.
  4. [4] Foa, E. B., & Kozak, M. J. (1986). Emotional processing of fear. Psychological Bulletin, 99(1), 20-35.
  5. [5] Grand, D. (2013). Brainspotting: The Revolutionary New Therapy for Rapid and Effective Change. Louisville, CO: Sounds True.

As referencias listadas são obras fundamentais da área de autoestima, vergonha e processos de reconstrucao pós-trauma. Este artigo e de caráter informativo e não substitui avaliação clínica individualizada.